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ƒисциплины:






A Construção do Convento



A construção do convento vai decorrer no macro-espaço que é Mafra, onde aparecem as personagens principais Baltasar e Blimunda.

O convento construir-se-á em Mafra como resultado do cumprimento de uma promessa do rei. É com uma certa diplomacia e valendo-se do que ouviu em confissão que Frei António de São José, envolvendo as suas palavras em mistério, consegue convencer o rei a proferir as tão ansiadas palavras УPrometo, pela minha palavra real, que farei construir um convento de franciscanos na vila de Mafra se a rainha me der um filho no prazo de um ano (Е)Ф, cap.I

 

A ordem franciscana aguardava há mais de cem anos poder construir um convento em Mafra. O projeto do mosteiro foi entregue ao arquiteto Frederico Ludovice que se encontrava em Lisboa ao serviço dos Jesuítas. A sua construção é o reflexo de uma época em que Portugal beneficiou de muita prosperidade e riqueza devido ao ouro proveniente do Brasil. Saramago olha este edifício com o olhar crítico de um homem do nosso tempo fazendo sobressair a luta titânica dos homens que o construíram para satisfazer a vaidade e a ambição de um rei.

O local onde vai ser construído o convento é escolhido pelo rei УEl-rei foi a Mafra escolher o sítio (Е)Ф, capVIII.

O rei, porém, tinha o sonho de fazer uma obra muito grandiosa, comparável à igreja de S. Pedro de Roma. No entanto, o arquiteto convence o rei a desistir de tal intento У(Е) A vontade de vossa majestade é digna do grande rei que mandou edificar Mafra, porém, as vidas são breves, majestade, e S. Pedro, entre a bênção da primeira pedra e a consagração, consumiu cento e vinte anos de trabalho e riquezas, vossa majestade, que eu saiba, nunca lá esteve, julga pelo modelo de armar que aí tem, talvez nem daqui a duzentos e quarenta anos o conseguíssemos, estaria vossa majestade morta, mortos estariam vossos filhos (Е) e se vale a pena estar a construir uma basílica que só ficará terminada no ano dois mil, (Е) se vossa majestade quer chegar ao fim da vida vendo ao menos levantado um palmo de parede, tem de dar já as necessárias ordens, senão nunca passará dos caboucos, (Е) A obra é longa, a vida é curta.Ф, capXXI.

Finalmente a decisão está tomada УSejam trezentos, não se discute mais, é esta a minha vontade, (Е)Ф, capXXI.



O medo que D. João V tem de morrer é uma questão de vaidade, pois esse facto impedi-lo-ia de assistir à sagração do convento. É por isso que determinará que o dia da sagração será no dia do seu aniversário, 22 de Outubro de 1730, domingo, cumprindo assim o ritual que diz ser esse o dia da semana para a sagração das basílicas. УD. João V (Е) tem desenhado na cara o medo de morrer, vergonha suprema em monarca tão poderoso. Mas esse medo de morrer não é o de se lhe abater de vez o corpo e ir-se embora a alma, é sim o de que não estejam abertos e luzentes os seus próprios olhos quando, sagradas, se alçarem as torres e a cúpula de Mafra (Е) e então el-rei mandou apurar quando cairia o dia do seu aniversário, vinte e dois de Outubro, a um domingo, tendo os secretários respondido, após cuidadosa verificação do calendário, que tal coincidência se daria daí a dois anos, em mil setecentos e trinta, Então é nesse dia que se fará a sagração da basílica de Mafra, assim o quero, ordeno e determino, (Е)Ф, cap XXI.

No entanto, as informações que recebeu davam conta de que a obra estaria atrasada para essa data, pelo que o rei mandou averiguar sobre quando voltaria a ser num domingo o seu aniversário. Feitas as contas, essa coincidência só voltaria a dar-se dez anos depois, o que, a seu ver, era muito tempo. УPorém, D. João V teve um pensamento negro, viu-se-lhe na cara, e faz rápidas contas, mentais, com a ajuda dos dedos, Em setecentos e quarenta terei cinquenta e um anos, e acrescentou lugubremente, Se ainda for vivo.Ф Deste modo, decidiu УA sagração da basílica de Mafra será feita no dia vinte e dois de Outubro de mil setecentos e trinta, tanto faz que o tempo sobre como falte, venha sol ou venha chuva, caia a neve ou sopre o vento, nem que se alague o mundo ou lhe dê o tranglomango.Ф, cap. XXI

 

A epopeia da pedra

O cap. XIX é consagrado à saga heróica do transporte de uma pedra enorme de Pêro Pinheiro para Mafra num percurso de cerca de quinze quilómetros. Essa pedra destinava-se à varanda situada sobre o pórtico da igreja. Para transportar a pedra foi preciso construir um enorme carro que foi puxado por 200 juntas de bois. A pedra tinha sete metros de comprimento por três de largura e sessenta e quatro centímetros de espessura. Pesava mais de 30 toneladas e levou oito dias a ser transportada.

É neste cap. que o narrador faz sobressair o povo e nele elege os seus heróis, os construtores da História, que sempre ficavam no anonimato. Este capítulo é uma epopeia cujo herói é o povo que, humilhado, sacrificado e miserável, alcança uma dimensão trágica e se eleva aos olhos, na sua força e humanidade, superando de longe as outras duas classes. Aqui se destaca a força, o suor, o sacrifício e até a morte dos homens que, pela sobrevivência, trabalham sem descanso para tornar possível o cumprimento da promessa do rei. Os homens são tirados do anonimato, alguns adquirem forma e identidade e vão entrar em ação, como Francisco Marques e Manuel Milho. Aos outros é-lhes prestada homenagem num simples desejo de os tornar imortais, de os incluir numa história de Portugal que os esqueceu УVão outros Josés, e Franciscos, e Manuéis, serão menos os Baltasares, e haverá Jooes, Álvaros, Antónios e Joaquins, talvez Bartolomeus, mas nenhum o tal, (Е) tudo quanto é nome de homem aqui vai, tudo quanto é vida também, sobretudo se atribulada, principalmente se miserável, (Е) uma letra de cada um para ficarem todos representados (Е)Ф, cap.XIX.

Ao avistarem a pedra, os homens têm um Уgemido de espantoФ, adivinhando talvez o esforço que lhes vai custar transportá-la. Na verdade, a pedra é muito grande Уtrinta e dois palmosФ.

Começam então os trabalhos para colocar a pedra no carro chamado Уnau da ÍndiaФ. УEscuro ainda tocou a corneta. Os homens levantaram-se, (Е) Descarregaram-se dos carros as cordas e os calabres, dispuseram-se as juntas de bois pelo caminho acima, em dois cordões. Mas ainda faltava vir a nau da Índia. Era uma plataforma de grossos madeiros assente em seis rodas maciças, de eixos rígidos, no tamanho um pouco maior que a laje que teria de transportarФ, cap. XIX.

A descrição pormenorizada dá-nos conta das dificuldades que tiveram para colocar a pedra em cima do carro. УA plataforma desceu muito devagar (Е) Foram retirados os grandes blocos de mármore que serviam de calços, já não há perigo que o carro fuja.Ф cap. XIX.

 

As dificuldades da viajem são enumeradas logo de início УVai ser uma grande jornada. Daqui a Mafra, mesmo tendo el-rei mandado consertar as calçadas, o caminho é custoso, sempre a subir e a descer, ora ladeando os vales, ora empinando-se para as alturas, ora mergulhando a fundo (Е) quem fez as contas aos 400 bois e aos 600 homens, se as errou, foi na falta, não que estejam de sobraФ, cap. XIX.

Avançavam tão lentamente que pareciam estar presos ao chão УNeste primeiro dia, que foi só à tarde, não avançaram mais que 500 passos. A estrada era estreita, (Е) Quando o carro tinha de parar, ou porque uma roda se metesse numa cova do caminho, ou porque o esforço compassado dos bois se medisse de repente com uma subida e obrigasse a uma pausa, parecia que já não seria possível movê-lo mais.Ф

No segundo dia, as aflições continuaram, principalmente nas subidas, mas ainda pior nas descidas onde, para o carro não fugir, era preciso meter-lhe os calços e os homens faziam uma força descomunal para o aguentar УNeste dia, desde o nascer do sol até ao fim da tarde, fizeram uns mil e quinhentos passos, (Е) Tantas horas de esforço para tão pouco andar, tanto suor, tanto medo, e aquele monstro de pedra a resvalar quando devia estar parado, (Е)Ф

O narrador intervém em tom emocional e com o seu toque humorístico УDeve-se a construção do convento de Mafra ao rei D. João V, por um voto que fez se lhe nascesse um filho, vão aqui 600 homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam (Е)Ф

 

A descida para Cheleiros vai constituir um verdadeiro calvário: o pesadelo das curvas. A partir daqui, o leitor segue angustiado o movimento perigoso e incerto do carro que transporta a tal pedra, a que há-de ser uma glória para o rei e uma infelicidade para o povo, uma vez que vai culminar com a morte de Francisco Marques, um dos homens transportadores. УUm dos homens que trabalham aos calços é Francisco Marques. (Е) Distraiu-se talvez Francisco Marques, ou enxugou com o antebraço o suor da testa, ou olhou cá do alto a sua vila de Cheleiros, enfim se lembrando da mulher, fugiu-lhe o calço da mão no preciso momento em que a plataforma deslizava, não se sabe como isto foi, apenas que o corpo está debaixo do carro, esmagado, passou-lhe a primeira roda por cima (Е). Tiraram Francisco Marques de debaixo do carro. A roda passara-lhe sobre o ventre, feito numa pasta de vísceras e ossos, por um pouco se lhe separavam as pernas do tronco, falamos da sua perna esquerda e da sua perna direita, que da outra, a tal do meio, a inquieta, aquela por amor da qual fez Francisco Marques tantas caminhadas, dessa não há sinal, nem vestígio, nem um simples farrapitoФ, cap. XIX.

Uma desgraça nunca vem só, pois nesse dia, a plataforma resvalou e partiu as pernas a dois bois que tiveram de ser mortos à machadada.

Enfim, a pedra lá foi seguindo o seu percurso, trabalhando até à exaustão homens e animais durante o dia, e descansando durante a noite. É nessas horas de descanso que, encaixada na narrativa principal, surge a história do Manuel Milho, que ameniza o sofrimento dos homens, que os distrai e os deixa curiosos para o desenlace, mantendo-os interessados para o episódio que surgirá apenas na noite seguinte. Assim, esta personagem popular introduz uma história que, parecendo ser uma sátira anti-monárquica, é uma reflexão profunda sobre a existência humana e sobre a possibilidade de transformação pelo sonho УJosé Pequeno esfregou o queixo, áspero da barba, e perguntou, Como é que um boieiro se faz homem, e Manuel Milho respondeu, Não sei. Sete-Sóis atirou o calhau para a fogueira e disse, Talvez voandoФ, cap. XIX.

 





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